quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Piano




Precisei visitar minha infância
e lá, encontrei as lacunas
quando sonhava, menina,
em me tornar bailarina.

Concertos e ballets inesquecíveis
pairaram na memória
de meus cinco anos,
e todos os sonhos e certezas,
perdidos no tempo longínquo,
carreguei comigo.

Pianista tornei-me,
deixando meu corpo no aguardo,
enquanto meus dedos criavam
sons e notas perfeitas.

Exames, partituras transformaram
meu piano no único símbolo
de uma menina frustrada
que buscava realizar seu desejo.

E tanto tempo passou
tantas melodias vieram
mas não eram, nem de perto
aquelas que esperava tocar...
(ou dançar)

Agora, o que faço com os sonhos
que não combinam com o corpo
que quero expressar?
Preciso encontrar o desejo
daquela menina sofrida
que não pôde viver nesta vida
o que sempre almejou realizar.


Erin Lagus

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Um fiapo




Um fiapo de luz sobrou,
é só o que liga
o passado ao que sou.

Quem fui...?
Uma solidão doída!

Tendo que encontrar algo...

Mergulhada num sopro de fracasso,
mesmo assim
permanecer em pé.

Sustentei, sem queixas
a dor do cristal
que se partiu.

Urinei estilhaços...
fiquei por longo tempo
a me repetir,
qual disco quebrado...
tocando o mesmo verso.

Infinitamente.

Mas assim estive,
a inspiração era amarga,
ácida.

E dela tirei meu alimento,
da sombra em que me encontrava
e não havia como sair.

Apelei para os deuses,
mas neles, não havia salvação;
ela estava aqui dentro,
e só corroía, o tempo todo.

Todo o tempo!

Hoje estou a beira
de um penhasco,
preparada para saltar,
alçar voo...
retroceder agora,
não posso.
Corro o risco
de prender-me a ilusões
que moram mortas
no cemitério das paixões.


Erin Lagus