sexta-feira, 28 de maio de 2010

Vazio


Vazia de mim estou,
vejo-me á distância.
observo.
sou juiz e plateia.
passeio por minha vida
como estrangeira.
só ao sentir meu corpo,
percebo vida.
os pés se ferem
ao tocarem o agora;
pedras frias e cortantes
lembram ruínas;
lamentos,
são vozes do que restou.
a boca permanece muda
enquanto um universo de sussurros
confundem sentidos e razão.
bloco de gelo à deriva no oceano,
folha levada pelo vento, vou.
e lampejos da alegria de outrora
são sombras,
falsas esperanças,
que adiam que eu passe a tranca
na porta que há de se fechar
por de trás de minha costas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Crisálida

Vazio
Metamorfose
Agonia
Um implante de asas vou inventar
para que do céu
aviste diminuto
tudo o que deve
permanecer pequeno.
Divago...
volto ao desconforto do mistério
retorno ao útero
e sua sombria dor
de latência.
Pareço mutilada
pois liberto
vícios do passado
que acorrentam
mente e gesto.
Luto
ebulição interna
já não vejo o fora
porque tudo o que se move é dentro.
Coração e vísceras,
pensamento e grito.

sábado, 19 de setembro de 2009

Fel



Do copo de fel que me deste,
nada sobrou;
sorví até a última gota;
envenenada, fiz parte de teu martírio;
julguei-me por ele responsável.
Hoje sei que era tudo o que podias me ofertar,
a tua seiva amarga e destrutiva;
dor, peso, prisão...
Lá permanecí por anos,
cela aberta e eu não via.
Ainda tento sair e não posso,
contaminada pela droga,
sem forças, só observo;
oscilo, levanto e caio.
Agora...espero;
um antídoto
capaz de me salvar
e arrancar
meu corpo inerte
do cárcere frio.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Luz e Sombra


Encontrar o eixo
o meu eixo
sem apoio ou muleta
apenas meu centro.

Ao encontrá-lo, toco Deus
ou a Deusa, ou a mim mesma
transformada em Divindade,
a plenitude em Luz e Paz.

Mas é tão rápido,
semi-fusa em andamento acelerado,
que logo tremo, desço e tropeço,
voltando a procurar aquela nesga de luz,
efêmera e rara.

Onde estou que me perco sempre?
Quem sou que só às vezes me encontro?
Ainda em dúvida e crise me desfaço,
como quem se busca inteira
mas que hoje é só um pedaço.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Outro lado da noite


A noite protege suas criaturas...
confusos morcegos saem à caça,
sorrateiros lagartos
e famintos seres competem.
Executivos se vestem de mulher
e travestis se passam por putas.
meninas vomitam na porta do bar,
enquanto bad boys espancam um taxista.

O mendigo se urina para se aquecer
e bebe prá esquecer a dor;
em casa, patéticas esposas
se iludem em frente ao computador,
encontram homens medíocres,
papos masturbatórios,
o que vale é exibir o ego
e enganar a alma.

É! A noite esconde o podre
a identidade
os olhos
a verdade;
como os ratos
que devoram agora
os restos de comida na dispensa
e uma barata furtuita
sobe
pela perna da mesa.


sábado, 11 de julho de 2009

No Espelho






Sou quebra-cabeça
multiforme
embora única,
desconstruída,
fragmentada,
restaurada...
sei de partes
conflitantes
que ligadas
tornam-se unas
novamente
como colcha de retalhos
colorida
desbotada,
puída, bordada
que desfia aqui,
costura-se acolá
e se for vista só um pouco,
perde-se a ideia
da totalidade.
Cada pedaço,
uma história;
cada marca,
cicatriz
multi partida,
talvez
fortalecida,
[e às vezes eu mesma
não consigo perceber-me]
quando junto
os pedaços
tão diversos,
controversos
gritam cores
calam medos
alinhavando o tempo
num compasso distorcido.

Salpicada de buracos,
cacos estilhaçados
que colados
não emendam;
esfarelados,
tornaram-se pó;
melhor aceitar essas lacunas,
(às vezes penso)
e entendê-las
como páginas em branco
onde eu possa passear
dançando um pouco
e, assim, rabiscar não sei o quê,
mas que permito ser inventado pelo novo.


quinta-feira, 2 de julho de 2009

Abraço




Sedutora é a noite...misteriosa

com seu belo manto protetor...


Tanto já foi dito sobre ela
e cantado em verso e prosa,
só me resta acrescentar
o que sua magia em mim provoca.

Talvez por ter nascido à meia noite,
sinistra hora das bruxas,
a verdade é que ,
coincidência ou não,
é quando desperto.

Injustiçada pelas mentes
mais conservadoras,
"Deus ajuda a quem cedo madruga",
ainda ouço minha avó repetir.
Transgressora aos olhos deles
e de suas crenças apoiadas na braganha;
já renegada, insisto na pergunta:
Por que depois de certa hora
acende em mim estranha chama
de um desejo enorme,
por perceber o mundo em suas minúcias,
desbravar caminhos nunca antes visitados.

Talvez o ar e as estrelas,
e seus silêncios perfumados
de saudades.
Ah! O silêncio, quem dera!
Acho que estou ficando velha.

Nesta nervosa cidade,
meia noite é meio dia,
baladas, buzinas,
esquinas lotadas,
latinhas de cerveja na mão,
fervilhar de gente...

Não, não é esta a noite que me inspira,
mas o sossego de poder
casar com ela
e junto carregar o brilho da lua,
consagrando a quietude do relento
ao abraçar uma antiga
árvore amiga.

Carmo