sábado, 16 de outubro de 2010

Póstuma




Por que não me disseste antes?
(Mas disseste...)

Por que só agora sei, e estás tão longe...?
Por que perder um amor assim,
abortado por empecilhos
que nem eram?
(Talvez, na hora fossem!)
Poderia ter sido vivido na essência,
posto ser verdadeiro em sua chama.

(Como saber?
Permanece, como lacuna, suspensa no tempo!?)

E agora, como encontrar-te?
Agora, como responder-te
o que deixei de perceber
naquele instante?
E ele passou,
se foi, como foste ...
num relâmpago de outono!

Erin Lagus

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O Rio



E que este rio carregue
toda amargura
e me leve,
para a outra margem,
com doçura.

Fluo, embalada
por ele e pela vida,
há silêncio e paz
na travessia.

Mesmo desconhecendo qual destino,
vou segura, deixando o passado no caminho,
abençoo cada pedra, por onde sigo,
solitária e certa
de ser este meu desígnio.

Já pedi ao vento
que varresse
todas as dores da memória, ainda viva,
mas preferi ao tempo, tal incumbência confiar,
receava que, em sua fúria,
o vento banisse os beijos
que comigo vou guardar.

Mas o tempo, corre quando não se quer
e custa a passar na urgência,
então, que leve, este rio,
minha tormenta,
deixando-me entregue
à outra margem,
que me espreita.


Erin Lagus

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Segredo


Névoa pura e nova chega,
qual brisa noturna, afaga...
sussurra mel,
apazigua dúvidas.

Penetra.
Intermitente orvalho
torna-se bálsamo que,
gota a gota
cura velhas cicatrizes.

Em seu colo morno
descanso a alma,
farta de penas.

Experimento seu gosto...
é de amoras frescas,
recém apanhadas no pé.
Tem a mania de acordar meus sorrisos,
esquecidos nas manchas do passado,
e com um toque imperceptível,
por ser manso,
revela verdes horizontes
e um negro dilema.

Mas, num enlevo atrevido
e inconsequente,
deixo-me ir,
como quando menina
ao correr na areia
para encontrar o mar.

Erin Lagus

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Anseio



Agora sou eu,
que habita nua,
vestida de fogo,
pela vida crua.
Ando,
caminhos tortos,
minados.
Certeza, não há!
Verdades, são vãs.
Vou, com a correnteza do agora,
pensar, não quero,
falar, não posso.

Anseio pelo toque, por delícias...
e divago, no encanto da lua.
Giro, tal qual pião,
no meio da rua,
cabeça vazia, ah!

Esqueço!
Largo, solto, salto pro nada.
Insana, pareço,
contraditória, tola...
desperto!

Então, vagueio...
coberta de negro, da cabeça aos pés,
escondo.
Cores de luto,
disfarço,
por fora, me enfeito,
por dentro, me encaro!

Erin Lagus

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Silêncio




Prezo silêncio...

a estaca não pára!

Buzinas, o cão,
motores...
de carros, caminhões,
do gás, do lixo,
notas infernais
e as ouço todas
em suas nuances
milimétricas.


Timbres insólitos,
agressores insuportáveis,
conspurcam uma paz urgente...


Prezo o silêncio!

Aquieto-me...

então,
ecos do passado
invadem
com uma ganância aguda,
fazendo eclodir memórias,
vozes, medos,
sonhos,
projetos inconclusos,
num redemoinho de pensamentos
incontroláveis...

Rogo por uma nesga de silêncio,
e me é tão caro...

silencio enfim,
para o mundo e para mim...
e o telefone toca,
toca,

toca,



toca...

já não o ouço

vez ou outra ainda,
como lâmina afiada,
novo enxame de ruídos
voltam a dilacerar
meu raro silêncio

permaneço...

a prezar por ele,

silencio...



Erin lagus

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Fenix






Cinzas, colho cinzas
e descubro nelas
sementes novas,
cuido de cada uma
como se fossem jóias
preciosas.

Último plantio
espero
que nasçam flores
as mais belas
e floresçam
...todas...

Testemunhas do tempo,
sofrimento e glória,
e só quero
um ramalhete de
rosas, primaveras
de todas as cores
e que provem
que há vida
e com ela a esperança
dos dias que passam,
amadurecem a semente
que é fértil
e brota,
cresce,
sempre.


Erin Lagus

domingo, 1 de agosto de 2010

Trilogia de Erin - III- A volta do Gamo Rei!



Desperta afinal o Gamo,
peregrino a vagar
pelas trevas.
Cruel pesadelo auto-imposto;
vassalo tornou-se de espectros cegos.

Embriagava-se ao sugar,
servindo banquetes à mercê de palavras,
em simbiose letal, inerte,
o seu sepulcro buscava.

E assim, jazia ele,
vítima de seu próprio martírio!
Lá, permaneceu largos anos,
esquálido flagelo,
da morte cativo.

Oculta, porém, nos escombros,
estava quem migalhas colhia ...
cuja existência marcada,
despertava piedade e simpatia.

Sorrateira, tornou-se alento,
para aquele que nada mais era,
amiga, envolvia-o na teia,
ao contentar-se com reles quimera.

Ardilosa, matreira, fingia idílio
e amizade sincera,
mas nas sombras comprava vida,
às custas de sortilégios.

Enfeitiçado e perdido,
não enxergava armadilha,
tramada a meia noite ,
na porta do cemitério.

Sacrifícios e sangue foram o preço
de tal macabra investida;
e de luto, o pobre sofria,
ciente que só caía, só caía!

Paciente, sua amada o esperava,
ingênua, nada sabia,
mas vítima dos malefícios,
só dormia, só dormia....

Até que, lúgubre grito,
despertou-a de sono profundo,
destroços tomavam lugar
do que antes era seu cultivo.

E foram dias de mágoa,
terror e dor infinita,
de quem conhecia o amor
lealdade e livre-arbítrio.

Com um punhal cravado no peito,
roga aos céus em feroz clamor,
acolhido de imediato
livrando o gamo de seu torpor.

Foi esse amor verdadeiro
a glória do Gamo Rei,
ainda tropeça, mas cria,
o próprio roteiro
que agora é só seu.


Erin Lagus